quarta-feira, 25 de março de 2009

Literatura - 3o ano


O Pré-Modernismo

A literatura brasileira atravessa um período de transição nas primeiras décadas do século XX. De um lado, ainda há a influência das tendências artísticas da segunda metade do século XIX; de outro, já começa a ser preparada a grande renovação modernista, que se inicia em 1922, com a Semana de Arte Moderna. A este período de transição, que não chegou a constituir um movimento literário, chamou-se Pré-Modernismo.
Uma vez não se tratando de um estilo de época, com características definidas, o pré-modernismo apresenta individualidades bastante acentuadas, com estilos, às vezes, antagônicos, não havendo, portanto, um padrão, mas sim alguns pontos comuns, como por exemplo, a ruptura com o passado e a denúncia da realidade brasileira(o Brasil não oficial do sertão nordestino e dos subúrbios).

CANUDOS: miséria, fanatismo e violência

A guerra de canudos(1896 - 1897) foi um dos conflitos mais violentos da história brasileira, ocasionando a morte de 15 mil pessoas, entre sertanejos e militares.
O Nordeste brasileiro vivia, nas últimas décadas do século XIX, uma de suas piores crises econômicas e sociais, o que provocou a morte de milhares de pessoas, vitimadas, principalmente, pela seca.
Canudos era, inicialmente, uma fazenda abandonada, no sertão da Bahia, na qual se instalou o fanático religioso Antônio Maciel, conhecido como Conselheiro. Em pouco tempo, em torno do líder religioso, formou-se uma cidade de pessoas miseráveis e abandonadas à própria sorte. A cidade, que passou a chamar-se Belo Monte, chegou a contar com cerca de 15 a 25 mil habitantes, sendo superada apenas por Salvador.
Isolados, alheios a pagamentos de impostos e à oficialização da cidade junto ao Estado, logo o povoado passou a Ter problemas com a igreja e com as leis locais, o que gerou o conflito.
Além disso, os sermões de Conselheiro não tratavam apenas da salvação das almas, mas também de problemas concretos, como a miséria e a opressão política. Talvez sem ter completa clareza do que falava, Conselheiro fazia críticas à República nascente, acusando-a de responsável pela condição do povo nordestino. Em todo o país, o movimento foi identificado como monarquista e considerado uma ameaça à soberania nacional, sem que suas verdadeiras causas fossem discutidas.

Adotando o modelo determinista, segundo o qual o meio determina o homem, a obra organiza-se em três partes:


A terra: condições geográficas do sertão.
O homem: descrição dos costumes do sertanejo.
A luta: descrição dos ataques a Canudos até a sua extinção.


Enviado, em 1897, como correspondente , pelo jornal O Estado de São Paulo, ao sertão da Bahia para cobrir a guerra de Canudos, Euclides da Cunha(1866-1909), ex-militar, coloca-se, nitidamente, a favor do sertanejo, situando o fenômeno de Canudos como um problema social, decorrente do isolamento político e econômico do Nordeste em relação ao resto do país. Assim, desmistificou a versão oficial do Exército, segundo a qual o movimento pretendia atacar a República.

FRAGMENTOS DE OS SERTÕES

TEXTO 1: descrição da caatinga.


"Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas.
Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças, e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvore sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante..."

TEXTO 2: descrição do sertanejo.


"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. [...] Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja - caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas."

TEXTO 3: a guerra e seu significado.


"Decididamente era indispensável que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior à função estúpida e bem pouco gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada e
digna. Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz, contínua e persistente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários."

Exercícios

1. Com base no texto 1, como se caracteriza a natureza onde vive o sertanejo?

2. De acordo com o texto 2, o sertanejo mostra-se contraditório. Por quê?

3. No texto 3, o autor critica a guerra em si. Afirma que "outra guerra mais demorada e digna" deveria ser travada. Qual é essa guerra?

4. O relato de Euclides da Cunha revela influências da ciência da época e, ao mesmo tempo, o desejo de chegar à verdade dos fatos.

a) Destaque do texto 2 um trecho que comprove as influências de teorias raciais existentes no começo do século XX.

b) Por que se pode afirmar que a estrutura da obra, dividida em três partes, prende-se aos pressupostos naturalistas de análise do comportamento humano?

c) Euclides não aceita a versão oficial do Exército, segundo a qual Canudos era um foco monarquista. Concluindo: na visão do autor, quais são as causas desse fenômeno social?

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA: entre o ideal e o real.

Esse é o principal romance de Lima Barreto(1881 - 1922). Contextualizada no final do século XIX, no Rio de Janeiro, a obra narra os ideais e a frustração do funcionário público Policarpo Quaresma, homem metódico e nacionalista fanático.
Sonhador e ingênuo, Policarpo dedica a vida a estudar as riquezas do país: a cultura popular, a fauna, a flora, os rios, etc.. Sua primeira decepção se dá quando sugere a substituição do português, como língua oficial, pelo tupi. O resultado é sua internação em um hospício.
Aposentado, dedica-se à agricultura no sítio Sossego, acreditando na fertilidade do solo brasileiro. Contudo, depara-se com uma dura realidade até então desconhecida: a esterilidade do solo, o ataque das saúvas, a falta de apoio ao pequeno agricultor.
Por fim, com a eclosão da Revolta da Armada, no rio de Janeiro, Quaresma apóia o então presidente, Marechal Floriano Peixoto, e como voluntário, participa do conflito. Assumindo o cargo de carcereiro, critica as injustiças que vê serem praticadas contra os prisioneiros. Como consequência, é preso e condenado ao fuzilamento por ordem do próprio Floriano, seu ídolo.

Além da descrição política do país nesse início de República, a obra traça um rico painel social e humano dos subúrbios cariocas na virada do século. Aposentados, profissionais liberais, moças casadoiras, carreiristas, músicos, donas de casa, o mulato - esse é o universo retratado por Lima Barreto. Destacam-se, nesse conjunto, as personagens Ismênia, moça formada para o casamento, que enlouquece quando abandonada pelo noivo; Olga, sobrinha de Policarpo, que difere da maioria das mulheres por ser mais independente; e o violonista e cantor de modinhas, amigo de Policarpo, Ricardo Coração-dos-Outros.
Nesta obra, Lima Barreto critica a mania de salvação nacional dos militares, sempre ansiosos para intervir na política, impondo soluções milagrosas; a educação recebida pelas mulheres, voltada exclusivamente para o casamento e a proibição do voto feminino.


MONTEIRO LOBATO(1882 - 1948): o moderno antimodernista.

Foi um dos escritores brasileiros de maior prestígio, graças a sua atuação como intelectual polêmico e autor de histórias infantis.
Sua ação, além do círculo literário, estende-se também ao plano da luta política e social. Moralista e doutrinador, aspirava ao progresso material e mental do povo brasileiro. Com sua personagem Jeca Tatu, por exemplo - um típico caipira acomodado e miserável do interior paulista - Lobato critica a face de um Brasil agrário, atrasado e ignorante, cheio de vícios e vermes. Seu ideal de país era um Brasil moderno, estimulado pela ciência e pelo progresso.
Com a publicação de O Escândalo do Petróleo(1936) denuncia o jogo de interesses que envolve a extração do petróleo e o envolvimento das autoridades brasileiras com os interesses internacionais. Em 1941, já durante a ditadura de Vargas, foi preso por ataques ao governo, provocando uma grande comoção no país inteiro.
Escritor sem qualquer pretensão de promover renovação psicológica ou estética, Lobato foi, antes de tudo, um contador de histórias, de casos interessantes, preso, ainda, a certos modelos realistas. Dono de um estilo cuidadoso, não perdeu a oportunidade de criticar certos hábitos brasileiros, como a cópia de modelos estrangeiros, nossa subserviência ao capitalismo internacional, o carneirismo das massas eleitorais, o nacionalismo ufanista e cego, etc...
Apesar de sua abertura ideológica, do ponto de vista artístico mostrou-se conservador quando começaram a surgir as primeiras manifestações modernistas em São Paulo.
Além de ter escrito literatura "adulta", Lobato foi também um dos primeiros autores de literatura infantil em nosso país e em toda a América Latina.
Especialistas em educação infantil, todavia, vêem, hoje, com reservas, alguns dos valores transmitidos pela literatura infantil de Lobato, como é o caso do enfoque dado às personagens negras.

AUGUSTO DOS ANJOS: o átomo e o cosmos.

Como poeta, sua obra é de grande originalidade. Considerado por alguns como poeta simbolista, Augusto dos Anjos (1884 - 1914) apresenta, na verdade, uma experiência única na literatura universal: a união do Simbolismo com o cientificismo naturalista. Por isso, dado o caráter sincrético de sua poesia, convém situá-lo entre o grupo pré-modernista.
Os poemas de sua única obra, EU(1912), chocam pela agressividade do vocabulário e pela visão dramaticamente angustiante da matéria, da vida e do cosmos. Integram a linguagem termos até então considerados antipoéticos, como escarro, verme, germe. Os temas são, igualmente, inquietantes: a prostituta, as substâncias químicas que compõem o corpo humano, a decrepitude dos cadáveres, os vermes, o sêmen.
Além dessa "camada científica"de sua poesia, verifica-se, por outro lado, a dor de ser dos simbolistas, a poesia de anseios e angústias existenciais.
Para o poeta não há Deus nem esperança; há apenas a supremacia da ciência. Quanto ao homem, as substâncias e energias do universo que o geraram e a matéria de que ele é feito (carne, sangue, instinto, células), tudo, fatalmente, se arrasta para a podridão e para a decomposição, para o mal e para o nada.


TEXTO 01: Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão – esta pantera
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedrej

Se a alguém causa inda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


TEXTO 02: Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde o epigênesis da infância,
A influência má dos signos do Zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


TEXTO 03: Pátria que me Pariu - Gabriel O Pensador


Uma prostituta chamada Brasil se esqueceu de tomar a pílula e a barriga cresceu
Um bebê não estava nos planos dessa pobre meretriz de dezessete anos
Um aborto era uma fortuna e ela sem dinheiro
Teve que tentar fazer um aborto caseiro
Tomou remédio, tomou cachaça, tomou purgante
Mas a gravidez era cada vez mais flagrante / Aquele filho era pior que uma lumbriga
E ela pediu prum mendigo esmurrar sua barriga
E a cada chute que levava o moleque revidava lá de dentro
Aprendeu a ser um feto violento / Um feto forte, escapou da morte
Não se sabe se foi muito azar ou muita sorte
Mas nove meses depois foi encontrado, com fome e com frio,
Abandonado num terreno baldio
Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu?!
A criança é a cara dos pais mas não tem pai nem mãe
Então qual é a cara da criança? / A cara do perdão ou da vingança?
Será a cara do desespero ou da esperança?
Num futuro melhor, um emprego, um lar...
Sinal vermelho, não dá tempo pra sonhar vendendo bala, chiclete...
"Num fecha o vidro que eu num sou pivete
Eu num vou virar ladrão se você me der um leite, um pão, um vídeo-game e uma televisão / Uma chuteira e uma camisa do Mengão
Pra eu jogar na seleção, que nem o Ronaldinho / Vou pra Copa, vou pra Europa..."
Coitadinho! Acorda, moleque! Cê num tem futuro! Seu time não tem nada a perder
E o jogo é duro! Você num tem defesa, então ataca!
Pra num sair de maca / Chega de bancar o babaca!
"Eu num aguento mais dar murro em ponta de faca
E tudo que eu tenho é uma faca na mão / Agora eu quero o queijo. / Cadê?
Tô cansado de apanhar, / Tá na hora de bater!"
Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu?!
Mostra a tua cara, moleque!
Devia tá na escola / Mas tá cheirando cola, fumando um beck,
Vendendo brizola e crack
Nunca joga bola mas tá sempre no ataque / Pistola na mão, moleque sangue-bom
É melhor correr porque lá vem o camburão
É matar ou morrer! / São quatro contra um! ( - Eu me rendo!!)
Bum! Clá-clá! Bum! Bum! Bum!
Boi, boi, boi da cara preta / Pega essa criança com um tiro de escopeta
Calibre doze, na cara do Brasil
Idade: catorze; estado civil: morto;
Demorou, mas a sua pátria mãe gentil conseguiu realizar o aborto.

Exercícios


Responda as questões de 1 a 3 , considerando o texto 2.


1. A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, constituída em grande parte com base em sentimentalismos, delicadezas, sonhos e fantasias.

a) Destaque do texto vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos anjos que tradicionalmente seriam considerados antipoéticos.

b) Indique de que área do conhecimento humano provêm esses vocábulos.

2. O poema pode ser dividido em duas partes: a primeira, que trata do próprio eu lírico, e a segunda, que trata da morte.

a) Como o eu lírico encara a vida e a si mesmo, nas duas primeiras estrofes?

b) Com que enfoque a morte é tratada, nas duas últimas estrofes?

3. O título é uma espécie de síntese das idéias do poema. Justifique-o.

4. Vamos fazer uma análise crítica levando em consideração a história de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto e o enredo de Pátria Que Me Pariu, de Gabriel O Pensador.

5. Identifique o poeta de preocupação filosófica e científica em cuja obra aparecem expressões do tipo: herança miserável de micróbios, cuspo afrodisíaco, fotosferas mórbidas, anatômica desordem, intracefálica tortura, microorganismos fúnebres..: ______________________.

6. Leia atentamente o texto abaixo, de Euclides da Cunha:
“Isoladas a princípio, estas turmas adunavam-se pelos caminhos, aliando-se a outras, chegando, afinal, conjuntas a Canudos. O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas.
A edificação rudimentar permitia à multidão sem lares fazer até doze casas por dia; - e, à medida que se formava, a tapera colossal parecia estereografar a feição moral da sociedade ali acoutada. Era a objetivação daquela insânia imensa. Documento iniludível permitindo o corpo de delito direto sobre os desmandos de um povo.
Aquilo se fazia a esmo, adoudadamente.
A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelos cômoros, atulhando as canhadas, cobrindo área enorme, truncado nas quebradas, revolto nos pendores – tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto.”

a) Por uma questão de estilo, o autor refere-se a Canudos empregando diversos termos sinonímicos. Cite quatro desses termos.

b) O texto de Euclides da Cunha foi extraído de sua obra-prima. Cite o título dessa obra.

c) Diga o gênero em que ela se enquadra(romance, ensaio, conto ou poema épico).

d) O núcleo da referida obra são os acontecimentos de Canudos. Diga, em síntese, o que ocorreu ali.

e) Quem era o chefe místico de Canudos?

7. Na figura de _____, Monteiro Lobato criou o símbolo do brasileiro abandonado ao seu atraso e à sua miséria pelos poderes públicos.


a) O Cabeleira b) Jeca Tatu c) João Miramar d) Augusto Matraga

8. A obra pré-modernista de Euclides da Cunha situa-se entre a __ e a ___
a) História – Psicologia
b) Geografia – Economia
c) Arte - Filosofia
d) Literatura – Sociologia
e) Teologia – Geologia

9. Criador da literatura infantil brasileira e criticado por seu agnosticismo, pois era influenciado pelo evolucionismo, positivismo e materialismo de fins do século XIX.
a) Monteiro Lobato
b) Jorge de Lima
c) Rui Barbosa
d) José Lins do Rego

10. “Triste a escutar, pancada por pancada.
A sucessividade dos segundos,
Ouço em sons subterrâneos, do orbe oriundos,
O choro da energia abandonada.”

A crítica reconhece na poesia de Augusto dos Anjos, como exemplifica a estrofe acima, a forte presença de uma dimensão:
a) niilista
b) patológica
c) cósmica
d) estética
e) metafísica


11. “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto é:
a) um livro de memórias em que a personagem-título, através de um artifício narrativo, conta as atribulações de sua vida até a hora da morte.
b) a história de um visionário e nacionalista fanático que busca, ingenuamente, resolver sozinho os males sociais de seu tempo.
c) uma autobiografia, em que o autor, sob a capa da personagem-título, expõe sua insatisfação em relação à burocracia carioca.
d) o relato das aventuras de um nacionalista ingênuo e fanático que lidera um grupo de oposição no início dos tempos republicanos.
e) o retrato da vida e morte de um humilde burocrata, conformado, a contragosto, com a realidade social de seu tempo.

12. Uma atitude comum caracteriza a postura literária de autores pré-modernistas, a exemplo de Lima Barreto, Graça aranha, Monteiro Lobato e Euclides da cunha. Pode ela ser definida como:
a) A necessidade de superar, em termos de um programa definido, as estéticas românticas e realistas.
b) A pretensão de dar um caráter definitivamente brasileiro à nossa literatura, que julgavam por demais europeizada.
c) Uma preocupação com o estudo e com a observação da realidade brasileira.
d) A necessidade de fazer crítica social, já que o Realismo havia sido ineficaz nessa matéria.
e) O aproveitamento estético do que havia de melhor na herança literária brasileira, desde suas primeiras manifestações.


Os Movimentos Europeus de Vanguarda

A ruptura com o passado e a pesquisa de novos meios de expressão são marcas registradas da arte no início do século XX. A ânsia de buscar novos caminhos explica o aparecimento de vários movimentos, principalmente nas artes plásticas e na literatura.

Cubismo

Teve início na França, em 1907( foi cultivado até 1918), com o pintor espanhol Pablo Picasso e com o poeta Apollinaire, havendo, no grupo, um intenso convívio entre escritores e artistas plásticos, o que estimulou uma intensa troca de idéias e técnicas.
Na Pintura: oposição à objetividade e à linearidade da arte realista e da renascentista e decomposição dos objetos representados em diferentes planos geométricos e ângulos retos.
Principal pintor brasileiro: Ismael Neri.
Na Literatura: fragmetação da realidade; superposição e simultaneidade de planos(mistura de assuntos, espaços e tempos diferentes); ilogismo; humor; antiintelectualismo; linguagem mais ou menos caótica, com poucos verbos; invenção de palavras; destruição da sintaxe já condenada pelo uso; substantivos soltos; menosprezo dos verbos, adjetivos e da pontuação; negação da estrofe, da rima e da harmonia; valorização da impressão tipográfica, o que influenciou a nossa poesia concreta dos anos 60.

Certos traços do movimento cubista são observados no texto a seguir, de Oswald de Andrade(modernista da década de 20):


HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails

Futurismo

Muito mais do que por obras, o movimento difunde-se (a partir de 1909, na França)
por meio de manifestos(mais de trinta) e conferências, tendo sempre à frente a figura de seu líder, Filippo Tommasio Marinetti.


Principais propostas do manifesto de 1909:

· Os elementos essenciais da nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta;
· Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco;
· Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos anarquistas, as belas idéias que matam e o menosprezo à mulher;
· Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas; combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.

Principais propostas do manifesto técnico de 1912: Destruição da sintaxe; disposição das palavras em liberdade; emprego de verbos no infinitivo; abolição dos adjetivos e dos advérbios; substantivo duplo em lugar de substantivo acompanhado por adjetivo(praça-funil, mulher-golfo, etc...); abolição da pontuação, substituída por sinais matemáticos e musicais.

Na pintura, as telas futuristas apresentam elementos que sugerem a velocidade e o mecanicismo da vida moderna.
Na literatura, as propostas técnicas do Futurismo são encontradas na maior parte da produção dos escritores dos anos 20, como é o caso do texto abaixo, de Mário de Andrade.

O Futurismo italiano e os fascistas
Algumas idéias do futurismo italiano, como o menosprezo à mulher e a exaltação da guerra(considerada um meio para "limpar" o planeta, livrando-o dos mais fracos) anteciparam, ideologicamente, aquilo que seria o fascismo italiano, nas décadas de 30 e 40, quando Marinetti se aproxima de Mussolini e o futurismo passa a ser uma espécie de expressão artística do fascismo.

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
.............................................................
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!

Ódio e insulto! Ódio e raiva!
Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo!
Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês.


Expressionismo

Surgiu em 1910, na Alemanha, a partir de um trabalho iniciado por Van Gogh(caricatura). Valoriza a materialização, numa tela ou numa folha de papel, de imagens nascidas no mundo interior do artista, ou seja, suas sensações no momento da criação, pouco importando os conceitos de belo e feio, mas sim a liberdade expressiva. Apresenta um enfoque contrário ao Impressionismo, que valoriza a impressão, ou seja, um movimento de fora para dentro, uma forma subjetiva de perceber a realidade
Durante e depois da Primeira Guerra, o expressionismo assumiu um caráter mais social e combativo, interessando-se pelos horrores da guerra e pelas condições de vida desumanas das populações carentes.
Na pintura expressionista brasileira, o principal nome é Anita Malfatti.

Principais propostas do expressionismo: A ate não é imitação, mas criação subjetiva, livre, é a expressão dos sentimentos; a realidade que circunda o artista é horrível, por isso ele a deforma ou a elimina, criando a arte abstrata; a razão se torna objeto de descrédito; a arte é criada sem obstáculos convencionais, o que representa um repúdio à repressão social.

Características do expressionismo na literatura: Linguagem fragmentada, elíptica, constituída por frases nominais (basicamente, aglomerados de substantivos e adjetivos), sem verbos e sem sujeito; despreocupação formal: sem rimas, sem estrofes, sem musicalidade; ideologicamente, os poetas expressionistas visam combater a fome, a inércia e os valores do mundo burguês.

Dadaísmo
Criado em 1916 por um grupo de refugiados de guerra, em Zurique, na Suíça, é o mais radical dos movimentos de vanguarda. A palavra dadá, escolhida ao acaso para batizar o movimento, nada significa. Os dadás entendem que, enquanto a Europa se banha de sangue, o cultivo da arte não passa de hipocrisia e presunção; por isso é preciso ridicularizá-la, agredi-la e destruí-la.

Muitas são as atitudes demolidoras dos artistas dadaístas: Noitadas em que predominavam palhaçadas, declamações absurdas, exposições inusitadas e a realização de espetáculos-relâmpagos que faziam de improviso nas ruas, em mio a urros, vaias, gritos, palavrões e à total incompreensão da platéia.
"Dadá permanece no quadro europeu das fraquezas; no fundo, é tudo merda, mas nós queremos doravante cagar em cores diferentes para ornar o jardim zoológico da arte de todas as bandeiras dos consulados."

"Que cada homem grite. Há um grande trabalho destrutivo, negativo , a executar. Varrer, limpar..."

Características dadaístas na literatura: Agressividade; improviso; desordem; rejeição a qualquer tipo de racionalização e equilíbrio; livre associação de palavras(escrita automática, técnica utilizada, mais tarde, pelo surrealismo); invenção de palavras com base na exploração apenas do seu significante; negação do passado, do presente e do futuro; falta de perspectiva diante da guerra; contra as teorias e as ordenanças lógicas; pouca importância ao leitor; contra os manifestos; valorização do grito e do urro contra o capitalismo burguês e a guerra.
Principais nomes: Tristan Tzara e André Breton. O desentendimento de ambos, após a guerra, quanto aos destinos do movimento, levou este último a criar o Surrealismo, uma das mais importantes correntes artísticas do século XX.



TEXTO 01:Poema Fonético:"Die Schlacht"- A Batalha - Ludwig Kassak

Berr... bum, bumbum, bum...
Ssi... bum, papapa bum, bumm
Zazzau... Dum, bum, bumbumbum
Prá, prá, prá...ra, hã-hã, aa...
Hahol...

TEXTO 02: Receita de Poema Dadaísta - Tristan Tzara

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção
Algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que as palavras são tiradas do saco
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa,
Ainda que incompreendido do público.

Surrealismo
Teve início na França a partir da publicação do Manifesto do Surrealismo(1924), de André Breton. Diversos pintores aderem ao movimento, interessados nas propostas artísticas de Breton, ligadas ao subconsciente e à psicanálise (André Breton era psicanalista). Dois são os aspectos que marcam o Surrealismo em seu início: as experiências criadoras automáticas e o imaginário extraído do sonho.

O automatismo artístico consiste em extravasar diretamente os impulsos criadores do subconsciente, sem qualquer controle da razão ou do pensamento. Significa pôr na tela ou no papel os desejos interiores profundos, sem se importar com coerência, significados, adequação.
Principais características surrealistas: Ilogismo; devaneio; sonho; loucura; hipnose; humor negro; imagens violentas; impacto do inusitado.
No Brasil, vários escritores foram influenciados pelas idéias surrealistas: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Jorge de Lima.


TEXTO 01: As Realidades (fábula), de Louis Aragon.

Era uma vez uma realidade
com suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
A re a re a realidade.
Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insônia
Então chegava a madrinha fada
E realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.

No trono havia uma vez
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.


TEXTO 02: Pré-História - Murilo Mendes

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,

Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.


O Modernismo

Pela diversidade e amplitude dos aspectos que compõem a arte moderna, torna-se muito difícil caracterizá-la com a mesma objetividade adotada para caracterizar movimentos(estilos de época) anteriores.

Na verdade, tanto na Europa quanto no Brasil, em vez de um movimento uniforme, o que houve no início do século foram correntes artísticas que se caracterizaram pela quebra dos valores artísticos tradicionais e pela busca de técnicas e meios de expressão capazes de traduzir a nova realidade do século XX.

No Brasil, a todas essas tendências chamou-se Modernismo, movimento equivalente ao Futurismo, para os italianos e ao Expressionismo, para os alemães.


A Semana de Arte Moderna: 1922.

Quando a Europa vivia seu último movimento de vanguarda, o Surrealismo, abriu-se ao público brasileiro o saguão do Teatro Municipal de São Paulo, nas noites de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, para uma série de apresentações, onde vários artistas mostravam obras com uma nova linguagem afinada com as correntes estéticas do começo do século.

A Semana não foi apenas um movimento artístico, mas também político e social(pregava a tomada de consciência da realidade brasileira). Constituiu-se no “brado coletivo” do movimento modernista, já enraizado em várias obras, artigos e manifestos desde 1917.

O evento tornou-se possível graças ao apoio financeiro dos fazendeiros de café, uma contradição, já que um dos objetivos era “assustar a burguesia que cochila na glória de seus lucros.”


Texto 01: OS SAPOS – Manuel Bandeira

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
-“Meu pai foi à guerra”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”

O meu verso é bom.
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
As formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas...”

Urra o sapo-boi:
-“Meu pai foi rei!” – “Foi!”
-“Não foi! “ – “Foi!” – “Não foi!”
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- “A grande arte é como
Lavor de joalheiro. ..

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: -“Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

Ou bem de estatutário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
-“Sei!”- “Não sabe!”- “Sabe!”

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

Texto 02: A Emoção Estética na Arte Moderna
Graça Aranha, na abertura da Semana


“Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida, se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado.”

Texto 03: Menotti del Picchia – na 2a noite do evento

“Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminé de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte!”



REPERCUSSÃO DO EVENTO NA IMPRENSA DA ÉPOCA

“Foi como se esperava, um notável fracasso a récita de ontem na pomposa Semana de Arte Moderna, que melhor e mais acertadamente deveria chamar-se Semana de Mal – às Artes.” (Folha da Noite – 16.02.22)

“A Semana de Arte Moderna está para acabar. É pena, porque, com franqueza, se do ponto de vista artístico aquilo representa o definitivo fracasso da escola futurista, como divertimento foi insuportável.” (Jornal do Commercio – 18.02.22)

“As colunas da seção livre deste jornal estão à disposição de todos aqueles que, atacando a Semana de arte Moderna, defendam nosso patrimônio artístico.” (O Estado de São Paulo)


DIVULGAÇÃO DAS IDÉIAS DA SEMANA

A partir dos acontecimentos no Teatro Municipal, divulgados pela imprensa da época, as novas idéias encontraram adeptos por todo o país. Assim, no período de 1922 a 1930 (primeira fase do Modernismo no Brasil) difundiram-se, por nosso cenário cultural, diversos manifestos e grupos, além de diversas revistas:

· Manifesto da Poesia Pau-Brasil : “A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. - A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. – A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”

· Manifesto Antropófago: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. – Tupy or nor tupy, that is the question. – Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto felicidade.”

· Manifesto Nhenguaçu Verde-Amarelo: “Aceitamos todas as instituições conservadoras, pois é dentro delas mesmas que faremos a inevitável renovação do Brasil, como o fez, através de quatro séculos, a alma da nossa gente, através de todas as expressões históricas. Nosso nacionalismo é verdamarelo e tupi.”

· Manifesto Regionalista de 1926: “Trabalhar em prol dos interesses da região (Nordeste) nos seus aspectos diversos: sociais, econômicos e culturais. – Desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste dentro dos novos valores modernistas.”

Primeira Fase do Modernismo Brasileiro(Poesia) : 1922 – 1930

Principais Características(forma e conteúdo):

1. Utilização do verso livre, desprezando-se, inclusive, a contagem silábica;
2. Livre associação de idéias, numa aparente falta de lógica;
3. Atitude combativa de oposição aos falsos valores: “Eu achava abomináveis as famílias das nossas relações.” (Oswald de Andrade)
4. Valorização de fatos e coisas do cotidiano: “Na feira livre do arrabaldezinho / Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor...” (Manuel Bandeira)
5. Humor, do qual resulta o chamado poema-piada: “Se Pedro Segundo / Vier aqui / Com história / Eu boto ele na cadeia.” (Oswald de Andrade)
6. Aproximação com a linguagem da prosa (coloquial): incorporação da fala brasileira à linguagem literária: “Vi a saída da lua / Tive um gesto singulá / Em frente da casa tua / São vortas que o mundo dá.” (Oswald de Andrade)
7. Incorporação do presente, do progresso, da máquina: “Os jornais / As grandes casas comerciais / Bondes / Tintinabulação de campainhas / Automóveis / Buzinas.” (Manuel Bandeira)

Principais Autores e Obras

1. Mário de Andrade(1893 – 1945);
2. Manuel Bandeira(1886 – 1968);
3. Cassiano Ricardo(1895 – 1975);
4. Oswald de Andrade: 1890 – 1954;
5. Alcântara Machado(1901 – 1935).

TEXTO 01: Descobrimento – Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da Rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.



TEXTO 02: Sampa – Caetano Veloso


Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas
ainda não havia para mim Rita Lee
a tua mais completa tradução
alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João
quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi de mau gosto o mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes
e foste um difícil começo afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende depressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso
do povo oprimido nas filas nas vilas favelas
da força da grana que ergue e destrói coisas belas
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
tuas oficinas de florestas teus deuses da chuva
panaméricas de áfricas utópicas túmulo do samba
(mais possível novo quilombo de Zumbi)
e os novos baianos passeiam na tua garoa
e os novos baianos te podem curtir numa boa.


TEXTO 03: Vou-me Embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do Rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.



TEXTO 04: flexas contra o muro – Cassiano Ricardo

Pra se poder viver
compra-se o mundo em que se vive.
Como quem compra um objeto secreto, mas visível.
Compram-se os seus problemas sem solução.
Quem nasce no mundo, hoje,
compra, sem o querer, uma pomba.
Com um alfinete feérico na cabeça
Uma pomba extremamente vizinha de bomba.
Uma e outra têm asas.
Uma e outra são limpas.
Ambas são irmãs pelo som.
Um simples equívoco
de fonemas ou de telefonemas
entre os dois hemisférios
uma troca de b por p
e o mundo explodirá em nossa mão.


TEXTO 05: Diversos, de Oswald de Andrade

PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira .
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.


VÍCIO NA FALA

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.


AMOR
Humor


TEXTO 06: Brás, Bexiga e Barra Funda – Alcântara Machado

Do consórcio da gente imigrante com o ambiente,
do consórcio da gente imigrante com a indígena
nasceram os novos mamelucos.
Nasceram os italianinhos.
O Gaetaninho.
A Camela.
Brasileiros e paulistas. Até bandeirantes.
E o colosso continuou rolando.
No começo a arrogância indígena perguntou meio zangada:

Carcamano pé-de-chumbo
Calcanhar de frigideira
Quem te deu a confiança
De casar com brasileira?

O pé-de-chumbo poderia responder tirando o cachimbo
da boca e cuspindo de lado: A brasileira, per Bacco!

Mas não disse nada. Adaptou-se. Trabalhou. Integrou-se.
Prosperou.
E o negro violeiro cantou assim:

Italiano grita
Brasileiro fala
Viva o Brasil!
E a bandeira da Itália!


A Prosa da 1a Geração Modernista

Apresenta menos inovações que a poesia.

Principais autores: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Alcântara Machado.

Principais características: emprego de períodos curtos; utilização da fala coloquial e aproximação com a linguagem da poesia.

AMAR, VERBO INTRANSITIVO – Mário de Andrade

É um romance que se aprofunda na estrutura familiar da burguesia paulistana. Segundo o próprio autor, “é um livro gordo de freudismo. Carlos não passa de um burguês chatíssimo do século passado.” O pai de Carlos, fazendeiro rico, no auge de suas excentricidades, resolve contratar uma governanta alemã, Fraulein, com a incubência de dar as primeiras lições de amor ao filho.

MACUNAÍMA, “o herói sem nenhum caráter” - Mário de Andrade

É uma obra voltada para o folclore brasileiro, uma tentativa de traçar um panorama do Brasil e do homem brasileiro. Acumula inúmeras lendas, provérbios, superstições, ditos populares, etc., montando um enorme mosaico da cultura brasileira.
A narrativa é iniciada com o nascimento de Macunaíma, na tribo dos Tapanhumas. Feio, pequeno, negro, preguiçoso, Macunaíma nada tem em comum com os heróis das histórias tradicionais. Sem caráter, mente para os irmãos, mata a mãe e parte pelo mundo afora, abandonando sua tribo. Conhece Ci, a mãe do mato, com quem se casa. Ci morre e Macunaíma recomeça sua viagem, levando consigo um amuleto que ela lhe dera: o Muiraquitã. Perde o amuleto, que é encontrado pelo gigante Piaimã, transformado no respeitável Venceslau Pietro Pietra, habitante de São Paulo. Macunaíma vai a São Paulo tentar recuperar o amuleto, devendo para isso derrotar o gigante – misto de canibal, colonizador e imigrante. Influenciado pela metrópole, Macunaíma descaracteriza-se, perdendo a ligação com suas raízes. Derrota Piaimã, recupera o amuleto, mas logo o perde novamente. Ao retornar à selva, sua tribo não existe mais e Macunaíma, solitário, sobe aos céus, transformando-se na Constelação da Ursa Maior



Exercícios (questões de vestibulares)

1. Antônio de Alcântara Machado é um autor singular no contexto modernista da primeira geração. Assinale a alternativa falsa em relação a ele.
a) Foi o maior “retratista” dos bairros italianos da cidade de São Paulo, no início do século.
b) Sua prosa, como a de Oswald de Andrade, possui um caráter experimental com os flashes cinematográficos, as elipses, etc., porém é uma obra bastante comunicativa e espontânea.
c) Seu tema de interesse são os imigrantes italianos, particularmente os mais abastados, que se dedicaram ao comércio e à indústria.
d) Seu livro mais conhecido é Brás, Bexiga e Barra Funda.
e) Foi participante da Revista de antropofagia.

2. O título da obra Macunaíma é especificado com “Herói sem nenhum caráter”. A alternativa que não é verdadeira em relação à especificação é:
a) O caráter do herói é ele não ter caráter definido.
b) O protagonista assume várias esferas de ação, daí ser simultaneamente herói e anti-herói.
c) A fragilidade de caráter do protagonista faz com que este perca, no decorrer da obra, sua característica de herói.
d) O herói se configura com suas qualidades paradoxais: ele é ao mesmo tempo preguiçoso e esperto, irreverente e simpático, valente e covarde.
e) O caráter do herói é contraditório, pois ele se caracteriza como um “sonso-sabido”.
3. Assinale o que for errado quanto ao Modernismo.
a) Nele tudo cabe, até o poema-piada.
b) A brasilidade foi um traço marcante.
c) Apesar de Manuel Bandeira defender o verso livre, muitos modernistas poetaram em versos rigorosamente metrificados.
d) Foi um movimento exclusivamente literário e exclusivamente de poetas, por isso Monteiro Lobato o repudiou.
e) A narrativa procura ser documental.

4. Assinale a alternativa correta. Esta questão tem, como base, a seguinte afirmação: “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
a) São Palavras de Gonçalves Dias, em defesa do índio brasileiro.
b) Foi escrita por José de Alencar, no prefácio de Iracema.
c) São Palavras de Mário de Andrade, que mostram a necessidade de incorporar valores estrangeiros à cultura brasileira.
d) Foi escrita por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago.
e) Refere-se à deglutição do bispo Sardinha.

A Segunda Geração Modernista : 1930 – 1945

A segunda geração modernista brasileira recebeu como herança todas as conquistas da primeira. Foi um período bastante fértil quanto a produção literária (poesia e prosa).
A par das pesquisas estéticas, a segunda geração amplia seu universo temático, incorporando preocupações relativas ao destino do homem, bem como ao “estar-no-mundo”.
Observamos um forte desejo de pesquisar nossa realidade social, espiritual e cultural. A arte mergulha fundo no tenso panorama ideológico da época.
Surge um dos mais importante pintores brasileiros, Cândido Portinari, que a exemplo dos demais artistas da época, denuncia as desigualdades da sociedade brasileira, bem como as conseqüências desse desequilíbrio.
O ensino da arquitetura foi renovado no país, graças a nomeação de Lúcio Costa para a direção da Escola Nacional de Belas Artes. Em 1934, formou-se Oscar Niemeyer, hoje, um dos maiores arquitetos do mundo.
A música erudita empenhava-se em alcançar uma linguagem nacional, principalmente através de Camargo Guarniere, Guerra Peixe e Radmés Gnatalli. Em 1930, Villa-Lobos começa a compor as Bachianas Brasileiras, fundindo Bach ao nosso folclore. A música popular apresenta um grande avanço qualitativo: Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Barbo.
Em 1933, acontece a primeira encenação do teatro brasileiro moderno com a peça O bailado do deus morto, de Flávio de Carvalho. Peça sem enredo tradicional, com elementos expressionistas e surrealistas, é proibida pela polícia, que alega atentado ao pudor.
Data de 1929, o primeiro filme brasileiro totalmente sonorizado – Acabaram-se os Otários, de Luís de Barros. Na década de 40, várias obras da literatura brasileira, consideradas clássicas, como O Cortiço e Inocência foram filmadas pela primeira vez.

A Poesia da 2a Geração

Quando a poesia dessa 2a fase, dois fatos devem ser considerados:

a) O amadurecimento da obra de autores da 1a fase que continuam produzindo: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo.

b) O amadurecimento de novos poetas: Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Vinícius de Morais e Mário Quintana.
Surge, nesse período, uma poesia ausente da 1a fase, de caráter espiritualista.

CARACTERÍSTICAS DA 2A GERAÇÃO

· O humor do poema-piada cede lugar a uma ironia mais refinada e sutil, adequada ao grave momento humano.
· Universalização dos temas: preocupação quanto ao destino do ser humano;
· Incorporação definitiva do verso livre à nossa poesia, todavia, sem a obsessão da 1a fase;
· Ressurgimento do soneto(forma fixa), porém com liberdade de expressão;
· Regionalismo(mais acentuado na prosa);
· Poesia lírico-amorosa.


Autores e Textos da 2a Geração Modernista

Carlos Drummond de Andrade: 1902 – 1987

Sua poesia reflete os problemas do mundo, do ser humano brasileiro e universal diante dos regimes totalitários, da segunda guerra e da guerra fria. Assim, Drummond é possuído de alguns momentos de esperança e em seguida torna-se descrente e desesperançado. Em várias passagens, insiste em mostrar a impossibilidade de o homem, sozinho, realizar alguma coisa.

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Murilo Mendes: 1901 – 1975

Sua poesia apresenta: humor e ironia como instrumento crítico, concepção surrealista e barroca do mundo, elementos do Cristianismo, e experimentação linguística. Ele revela o homem em conflito com a realidade, procurando criar uma arte engajada nas questões sociais mais prementes de seu tempo.

Poliedro

O menino experimental come as nádegas da avó
e atira os ossos ao cachorro.
O menino experimental ateia fogo ao santuário
para testar a competência dos bombeiros.
O menino experimental benze o relâmpago.
O menino experimental repele as propostas da prima de dezoito anos,
Chamando-a de bisavó.


Jorge de Lima: 1895 – 1953

Sua temática é bastante diversa: textos parnasianos, recordações da infância, regionalismo, o negro, o folclore e a religião como solução para uma realidade injusta.

Essa Negra Fulô
(incompleta)

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no banguê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô! / Essa negra Fulô!

Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala de Sinhá
chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dela pulou
nuinha a negra Fulô.

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Foi você, negra Fulô?


Vinícius de Moraes: 1913 – 1980

“Sua vida não foi mais que a busca da mulher amada, a cuja beleza física e perfeição interior dedicaria praticamente toda sua obra”, declarou uma irmã do poeta.
A trajetória poética de Vinícius apresenta, entre outros, os seguintes aspectos: religiosidade, amor, desejo, sensualismo, erotismo, cotidiano e engajamento político.



Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe, a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Cecília Meireles: 1901 – 1964
Fez parte da corrente espiritualista da 2a geração.


SUGESTÃO

Sede assim
qualquer coisa
-Serena, isenta, fiel,
Flor que se cumpre
Sem pergunta.

Onda que se esforça
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida
Sustentando seu demorado destino
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser

À cigarra queimando-se em música
Ao camelo que mastiga sua longa solidão.
Ao pássaro que procura o fim do mundo.
Ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim
Qualquer coisa
-Serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.

Questões de Vestibulares e Concursos

1. Na década de 30, o Brasil assiste a um movimento de renovação católica, daí resultando uma corrente espiritualista que contou com pensadores importantes como Alceu de Amoroso Lima(Tristão de Ataíde) e Jackson de Figueiredo. Na poesia, essa corrente foi representada por quais autores?

2. A poesia modernista revela:
a) ritmo psicológico
b) cotidianismo
c) sintaxe e pontuação revolucionárias.
d) Estão corretas as afirmações a e c.
e) Estão corretas as afirmações a, b e c.

3. Leia os versos abaixo: eles abordam dois aspectos comuns na poética de Drummond. Comente-os.
“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.”

4. Excelente sonetista, é um dos poucos representantes da poesia sensual, erótica, com fortes imagens. “Essa mulher é um mundo! – uma cadela,
Talvez... – mas na moldura de uma cama,
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!”
Trata-se de:
a) Oswald de Andrade
b) Carlos Drummond de Andrade
c) Jorge de Lima
d) Murilo Mendes
e) Vinícius de Moraes

5. Poeta que fala clm humor e ironia da mediocridade da “vida besta” que preside o cotidiano e cuja obra(A rosa do povo, Claro enigma) é marcada por vigoroso espírito de síntese e pelo sentido trágico da existência. Trata-se de:
a) Vinícius de Moraes
b) Mário de Andrade
c) Carlos Drummond de Andrade
d) Cecília Meireles
e) Olavo bilac

6. Leia atentamente o texto:

Dados Biográficos

“Mas que dizer do poeta
numa prova escolar?
Que ele é meio pateta
E não sabe rimar?

Que veio de Itabira,
terra longe e ferrosa?
E que seu verso vira,
de vez em quando, prosa?

Que encontrou no caminho
uma pedra e, estacando,
muito riso escarninho
o foi logo cercando?”


Esses “dados biográficos” são do poeta:
a) Jorge de Lima
b) Carlos Drummond de Andrade
c) Manuel Bandeira
d) Guilherme de Almeida
e) João Cabral de Melo Neto

7. O livro de Cecília Meireles que evoca os “tempos do ouro” denomina-se:
a) Romanceiro da Inconfidência
b) Retrato natural
c) Balada para el-Rei
d) Romance de Santa Clara
e) Vaga Música

8. Sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade é incorreto afirmar que:
a) seu posicionamento individualista o afasta da problemática do homem comum, do dia-a-dia.
b) uma de suas temáticas é a reflexão em torno da própria poesia.
c) a lembrança de Itabira, sua terra natal, aparece em parte de sua obra.
d) ocorre-lhe, muitas vezes, a mostragem de uma angústia proveniente de acreditar que não há saída para a problemática existencial.
e) a ironia madura é uma das características mais marcantes de sua poesia.

9. Associe os traços da poesia de Manuel Bandeira, relacionados a seguir, aos versos em que estão presentes: A – reminiscências da infância; B – ironia na auto-apresentação; C – solidão; D – doença e morte.
a) ( ) “A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”
b) ( ) “Então me levantei, bebi o café que eu mesmo preparei.”
c) ( ) “Provinciano que nunca soube escolher uma gravata.”
d) ( ) “A casa de meu avô... / Nunca pensei que ela acabasse / Tudo lá parecia impregnado de eternidade.”



A Prosa da Segunda Fase

As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o consequente questionamento das tradicionais oligarquias, os efeitos da crise econômica mundial, os choques ideológicos levando a posições mais definidas e engajadas, formam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social, verdadeiro documento da realidade brasileira.
“Nós, no Brasil, queremos, acima de tudo, nos encontrar com o povo que andava perdido. E podemos dizer que encontramos este povo fabuloso espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra. O romance de nossos dias está todo batido nesta massa, está todo composto com a carne e o sangue de nossa gente... O nosso romance tem um século. Justamente em 1843, publicava-se, no Brasil, o primeiro romance. Levamos uns anos para chegar ao povo. Hoje, podemos dizer, já podemos afirmar: o povo é, em nossos dias, heróis de nossos livros. Isto equivale a dizer que temos uma literatura.”(José Lins do Rego – 1943)
Na busca do homem brasileiro, o regionalismo ganha uma importância inédita na literatura brasileira, levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social: “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste.”


Principais temas abordados

· Os banguês e os engenhos, nas regiões de cana, sendo devorados pelas modernas usinas;
· O poder político na mão de interventores;
· As constantes secas agravando as desigualdades sociais e gerando mão-de-obra baratíssima;
· O intenso movimento migratório;
· A miséria, a fome.

O primeiro romance represe3ntativo do regionalismo nordestino, que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926, foi A Bagaceira, de José Américo de Almeida, publicado em 1928, marcando a história literária do Brasil, tendo como temática a seca, os retirantes e o engenho.



PRINCIPAIS AUTORES E OBRAS

Graciliano Ramos: 1892 – 1953

Romances: Caetés(1933); São Bernardo(1934); Angústia(1936); Vidas Secas(1938); Brandão entre o mar e o amor(em parceria com Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado e Aníbal Machado).

Memórias: Infância(1945); Memórias do Cárcere(1953); Viagem(1954); Linhas Tortas(1962).

Conto: Insônia(1947); Crônica: Viventes das Alagoas(1962).

Literatura infanto-juvenil: A terra dos meninos pelados(1937); Histórias de Alexandre(1944); Histórias incompletas(1946).


José Lins do Rego: 1901 – 1957

Na época da Semana de Arte Moderna, participou do grupo regionalista do Recife. Sua linguagem é marcada pelo aproveitamento do tom oral da língua, mostrando uma preocupação maior em “ser verídico” do que em “fazer estilo”.
Seus temas são voltados para o Nordeste, onde viveu: a arbitrariedade dos coronéis; a decadência dos patriarcas rurais; a luta do progresso contra o atraso; o cangaço; as intrigas da política local – tudo temperado pela decadência do engenho, engolido pela usina moderna.

Ciclo da cana-de-açúcar: Menino de Engenho(1932); Doidinho(1933); Banguê (1934); Usina(1936); Fogo Morto(1943).

Ciclo do cangaço(misticismo e seca): Pedra Bonita(1938); Cangaceiros(1953).

Obras independentes: O Moleque Ricardo(1934); Pureza(1937); Riacho Doce (1939); Água Mãe(1941); Eurídice(1947).

Jorge Amado: 1912....

Romances da Bahia: Denúncia das injustiças sociais e da opressão, tendo Salvador como cenário. O autor constrói um mundo dividido entre bons e maus, negros e
brancos. O amadurecimento político das personagens que simbolizam os oprimidos, quando ocorre, é pouco convincente: O País do Carnaval, Suor e Capitães de Areia.

Romances ligados ao ciclo do cacau: Ainda existe a preocupação de denunciar a exploração sofrida pelas classes trabalhadoras, porém num novo cenário: as fazendas de cacau do sul da Bahia, palco de conflitos sociais decorrentes da oposição entre o trabalhador rural e o exportador de cacau: Cacau (“Esgotou em quarenta dias a edição de 2 mil exemplares; a proibição de venda por subversivo, decretada pela polícia carioca, ajudou o sucesso de público.”) , São Jorge dos Ilhéus e Terras do Sem-Fim.

Crônicas de costumes: O autor enfatiza os diversos aspectos do comportamento social das personagens, geralmente vistas em grupo ou como símbolos de um grupo. Utilizando o cenário baiano, o autor narra histórias em que malandros e vagabundos são elevados à categoria de heróis românticos e folhetinescos: Mar Morto; Gabriela, Cravo e Canela; A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água; Teresa Batista Cansada de Guerra; Tieta do Agreste; Dona Flor e Seus Dois Maridos.


Érico Veríssimo: 1905 – 1975

Romance urbano: A temática dessas obras é o cotidiano da cidade grande, com seus conflitos de valores morais, sociais, espirituais. Flagrando, no ambiente urbano, uma sociedade em crise, o autor analisa-a e insinua uma solução: a solidariedade: Clarissa; Olhai os Lírios do Campo; O Resto é Silêncio; Caminhos Cruzados.

Romance histórico: O painel histórico montado pelo escritor abrange a formação social, econômica e política do Rio Grande do Sul, no período compreendido entre 1745 e 1945. Fatos importantes de nossa história aparecem incorporados na obra: a Coluna Prestes, a Revolução de 32, o levante comunista de 1935... Tudo isso tendo como eixo narrativo a disputa pelo poder envolvendo as famílias Amaral e Terra Cambará, na trilogia O Tempo e o Vento, que saiu entre 1949 e 1961, em três romances: O Continente(1949); O Retrato(1951); O Arquipélago(1961).

Romance político:São obras que se atêm à política nacional: O Senhor Embaixador(1965) – trata de uma revolução numa república fictícia da América Central; O Prisioneiro(1967) – tem com cenário o sudeste asiático; Incidente em Antares(1971) – o escritor explora o absurdo e o fantástico, tendo como pano de fundo a história mais recente do país. Após descrever a origem de Antares (o próprio Brasil?), ocorre o incidente: na imaginária cidade, em dezembro de 1963, faz-se uma greve de coveiros; em represália, os cadáveres insepultos resolvem ressuscitar e denunciar a corrupção que se alastrava entre os moradores da cidade.


Rachel de Queiroz: 1910...

Sua obra é marcada pelo caráter fortemente regionalista dos romances modernistas: o Ceará, sua gente, sua terra, as secas, são notas constantes em seus romances, escritos numa linguagem fluente e de diálogos fáceis, resultando numa narrativa dinâmica.
Os primeiros romances – O Quinze e João Miguel – apresentam a coexistência do social e do psicológico, predominando o social. Já em Caminhos de Pedras atinge o máximo da literatura engajada e esquerdizante: é seu romance mais social, mais político, publicado em 1937, início do Estado Novo, quando é presa.
A partir de então, em virtude do contexto adverso, abandona pouco a pouco o aspecto social de sua obra, passando a valorizar a análise psicológica, o que é percebido no romance As Três Marias.


Exercícios

1. Fogo Morto e Pedra Bonita são romances de José Lins do Rego que pertencem:
a) o primeiro, ao ciclo ____________________________________;
b) o segundo, ao ciclo____________________________________.

2. [Fabiano] “Com uma raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada no chão.”
[Cachorra Baleia] “Defronte do carro de boi faltou-lhe a perna traseira.”

a) O que significam, comparativamente, os termos destacados, dentro do contexto do livro Vidas Secas?
b) Quem é o autor desta obra?

3. Em uma parte da obra de Érico Veríssimo (por exemplo: .... e ....), predomina a temática urbana. Nesses romances, o autor desenha as personagens como representantes medianos da pequena burguesia gaúcha. Quais os romances que preenchem corretamente as lacunas?

4. O romance de estréia de José Lins do Rego, intitulado________, é uma das mais altas expressões literárias do ciclo__________________________.

5. Cite um romance de José Lins do Rego, cujo tema fundamental é o da decadência dos senhores de engenho no Nordeste do Brasil. A que movimento literário pertence a obra?

6. Assinale a alternativa em que ambos os romances citados evocam o mundo do internato e seus problemas:
a) O Ateneu – Doidinho
b) Casa de Pensão – Memórias Sentimentais de João Miramar
c) Memórias Póstumas de Brás Cubas – Infância
d) Menino de Engenho – O Ateneu


7. Graciliano Ramos escreveu um romance cuja personagem principal, lutando por riqueza e posição social, deixa-se contaminar pela agressividade que caracteriza o meio social em que vive. Aprofundando-se, portanto, na sondagem da personalidade do protagonista, o autor logrou, também, uma visão crítica da sociedade que determinou a maneira de ser da personagem. A obra em questão:
a) Insônia
b) Angústia
c) São Bernardo
d) Infância
e) Vidas Secas


8. Em 1928, a publicação de uma obra de José Américo de Almeida abre caminhos para o romance regionalista que o Modernismo iria desenvolver largamente. Trata-se de:
a) A Bagaceira
b) Porto Calendário
c) Caetés
d) Luzia-Homem
e) Cangaceiros


9. A obra de Jorge Amado, em sua fase inicial, aborda o problema da:
a) seca periódica que devasta a região da pecuária do Piauí.
b) decadência da aristocracia da cana-de-açúcar diante do aparecimento das usinas.
c) luta pela posse de terras na região cacaueira de Ilhéus.
d) Aristocracia cafeeira, que se vê à beira da falência com a crise de 29.


10. São obras do mesmo autor de Vidas Secas:
a) Jubiabá, Mar Morto
b) Angústia, São Bernardo
c) Usina, Fogo Morto
d) A Bagaceira, Coiteiros
e) O Quinze, Caminhos de Pedras

A Terceira Geração Modernista : 1945 - ....

Alguns historiadores chamam de Modernismo as duas primeiras fases do movimento e de Pós-Modernismo o período seguinte a 1945. Outros preferem chamar de terceira fase o período compreendido entre 1945 e 1960 e de Tendências Contemporâneas o período de 60/70 aos nossos dias. Verdade é que a partir de 1945 a literatura passa por profundas alterações, algumas representando um enorme avanço; outras, um retrocesso.

A PROSA , tanto nos romances como nos contos, aprofunda a tendência já trilhada por alguns autores da década de 30, em direção a uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva, com destaque especial para Clarice Lispector. O regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil central.

Na POESIA, a partir de 1945, ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às conquistas e inovações dos modernistas de 22. Assim, negando a liberdade formal, as ironias e as sátiras e “outras brincadeiras” modernistas, os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais “equilibrada e séria”, distante do que eles chamavam de “primarismo desabonador” de Mário e Oswald de Andrade. A preocupação básica era o “restabelecimento da forma artística e bela”, os modelos voltando a ser parnasianos e simbolistas. Esse grupo, chamado de Geração de 45, era formado por: Ledo Ivo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos, Darcy Damasceno e outros.
O final dos anos 40 revela um dos mais importantes poetas da nossa literatura, não filiado esteticamente a qualquer grupo e continuador das experiências modernistas anteriores: João Cabral de Melo Neto.

O TEATRO foi a arte que apresentou maiores inovações no período, o que já se pressentia, no plano cênico, em 1943, quando o diretor e ator Ziembinsky(judeu refugiado no Brasil) dirigiu uma montagem radicalmente ousada da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. A partir de 1950, montaram-se dois grupos: o TBC – Teatro Brasileiro de Comédia e o Teatro de Arena, responsáveis por transformações muito significativas em nosso panorama teatral.



A Prosa da Terceira Geração

URBANA: trata do conflito entre o indivíduo e o meio social: Dalton Trevisan(contos), Rubem Braga(crônicas), Lygia Fagundes Telles(romances e contos).

INTIMISTA: sondagem psicológica; concentra-se na análise psicológica do mundo interior das personagens: Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Antonio Olavo Pereira.

REGIONALISTA: surgiu no século XIX com Bernardo Guimarães, sendo agora retratada com grandes inovações temáticas e linguísticas: Herberto Sales, Mário Palmério, Bernardo Ellis, Guimarães Rosa, o grande renovador de nosso regionalismo.

Clarice Lispector: 1925 – 1977

Tem por objetivo atingir as regiões mais profundas da mente das personagens para aí sondar complexos mecanismos psicológicos, o que determina as características específicas de seu estilo:
· O enredo tem importância secundária. As ações, quando ocorrem, destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. São comuns histórias sem começo, meio ou fim;
· Predominância do tempo psicológico. O narrador segue o fluxo do pensamento das personagens, logo, o enredo pode fragmentar-se;
· O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens;
· Características físicas das personagens ficam em segundo plano; muitas personagens sequer apresentam um nome;
· As personagens descobrem-se num mundo absurdo diante de um fato inusitado. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará, para sempre, sua vida.

ROMANCES: Perto do Coração Selvagem(1944); O Lustre(1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro(1961); A Paixão Segundo G.H.(1964); Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres(1969); A hora da estrela(1977).

CONTOS E CRÔNICAS: Laços de Família(1960); A legião estrangeira(1964); Felicidade Clandestina(1971); A imitação da rosa(1973); A via crucis do corpo (1974); A bela e a fera(1979).


Guimarães Rosa: 1908 – 1967

O sertão criado por Guimarães Rosa é uma realidade geográfica, social, política, mas também é uma realidade psicológica e metafísica. Nesse espaço (sertão/mundo), o sertanejo não é apenas o homem de uma região e de uma época específicas, mas o homem universal, defrontando-se com problemas eternos: o bem e o mal; o amor, a violência, a existência ou não de Deus e do Diabo, etc., fazendo com que o seu regionalismo seja classificado como universalista.
Ele recria a linguagem regional de forma bastante elaborada. Baseando-se na linguagem da região em que “ocorrem” as histórias narradas, o autor cria palavras novas, recupera o significado de outras e emprega termos de línguas estrangeiras.
“A gente morre é para provar que viveu... As pessoas não morrem, ficam encantadas.”(Guimarães Rosa)

ROMANCE: Grande Sertão: Veredas(1956);

CONTOS: Sagarana(1946); Corpo de baile(1956); Primeiras estórias (1962); Tutaméia: terceiras estórias(1967); Estas estórias(1969); Ave, palavra(1970).


POESIA: João Cabral de Melo Neto: 1920 - ....

Sempre guiado pela lógica e pelo raciocínio, seus poemas evitam análise e exposição do eu, voltando-se para o universo dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais, jamais apelando para o sentimentalismo. Por isso, o prazer estético que sua poesia pode provocar deriva, sobretudo, de uma leitura racional, analítica, não do envolvimento emocional com o texto. Assim, sua poesia caracteriza-se pela objetividade na constatação da realidade, do cotidiano, desenvolvendo-se, em alguns casos, em direção ao Surrealismo.
Três grandes preocupações são observadas em sua obra:

O NORDESTE com sua gente: os retirantes, suas tradições, seu folclore, a herança medieval e os engenhos; de modo particular, seu estado natal e sua cidade. São objetos de verificação e análise, os mocambos, os cemitérios e o rio Capibaribe, que aparece, por mais de uma vez, personificado.
A ESPANHA e suas paisagens em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro.
A PRÓPRIA ARTE e suas várias manifestações.
MORTE E VIDA SEVERINA, sua obra-prima, apresenta várias passagens ou cenas... etapas na longa caminhada do retirante Severino, que sai em busca da vida, caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o sertão, o agreste, a zona da mata, a cidade litorânea.

PRODUÇÃO LITERÁRIA: Pedra do sono(1942); O engenheiro(1945); Psicologia da composição(1947); O cão sem plumas(1950); O rio(1954); Morte e vida severina(1956); Paisagem com figuras(1956); Uma faca só lâmina(1956); A educação pela pedra(1966); Museu de tudo(1975); Auto do frade(1984); Agrestes (1985); Crime na Calle Relator(1987).

TEXTO 01: O Sertanejo Falando

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedras ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar;
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las:
pois toma tempo todo esse trabalho.


TEXTO 02: O Cão sem Plumas

Aquele rio
era como um rio sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las:

Questões de vestibulares e concursos

1. Sobre o adjetivo severina, da expressão Morte e vida severina que intitula a peça de João Cabral de Melo Neto, todas as afirmativas estão corretas, exceto:
a) Refere-se aos migrantes nordestinos que, revoltados, lutam contra o sistema latifundiário que oprime o camponês.
b) Pode ser sinônimo de vida árida, estéril, carente de bens materiais e de afetividade.
c) Designa a vida e a morte dos retirantes que a seca escorraça do sertão e o latifúndio escorraça da terra.
d) Dá nome à vida de homens anônimos, que se repetem física e espiritualmente , sem condições concretas de mudança.
e) Qualifica a existência negada, a vida daqueles seres marginalizados determinada pela morte.

2. O romance de Clarice Lispector:
a) filia-se à ficção romântica do século XIX, ao criar heroínas idealizadas e mitificar a figura da mulher.
b) define-se como literatura feminista por excelência, ao propor uma visão da mulher oprimida num universo masculino.
c) prende-se à crítica de costumes, ao analisar com grande senso de humor uma sociedade urbana em transformação.
d) explora até as últimas consequências, utilizando, embora, a temática urbana, a linha do romance neonaturalista da geração de 30.
e) renova, define e intensifica a tendência introspectiva de determinada corrente de ficção da segunda geração moderna.

3. A partir de 1945, segundo um critério histórico, as tendências da literatura brasileira estruturam-se, configurando um quadro diferente daquele advindo de 1922 (Semana de Arte Moderna). Dentre as opções apresentadas, quais as que definem a nova tendência?
Anarquismo estético, justificado pela Segunda Guerra Mundial.
Preocupação existencial e metafísica que se aliava ao protesto às circunstâncias históricas.
Volta ao metro e à rima tradicionais, ao lado de novas invenções do verso.
Busca de originalidade a qualquer preço.

a) 1,2 b) 2,3 c) 3,4 d) 4,1 e) 4,2

4. “O romance é narrado na primeira pessoa, em monólogo ininterrupto, por Riobaldo, velho fazendeiro do norte de Minas, antigo jagunço, que conta a sua vida e a sua angústia.”
O autor do romance a que se refere o texto acima é também o de:
a) Chapadão do Bugre
b) Sagarana
c) O Garimpeiro
d) O Coronel e o Lobisomem
e) Vila dos Confins

5. Sobre o aspecto das obras literárias:

COLUNA A
1. Grande Sertão:Veredas
2. Vidas Secas
3. Fogo Morto
4. Senhora
5. O Ateneu

COLUNA B
( ) Romance de cunho psicológico, que narra a vida da personagem principal dentro de um internato.
( ) Obra de cunho social, escrita em linguagem cuidada que reflete a influência de Machado de Assis.
( ) Romance de caráter urbano, que retrata aspectos da sociedade da época, tendo como exemplo, o casamento convencional.
( ) Obra-prima de seu autor, que focaliza a vida do engenho e sua decadência.
( ) Romance de tensão transfigurada, que o autor procura constituir uma outra realidade, de caráter universal, sem esquecer, porém, os problemas do homem da região. Sua linguagem é original.

a) 5,4,1,3,2 c) 3,1,4,2,5 e) 1,3,2,5,4
b) 4,3,2,5,1 d) 2,3,4,5,1

6. Este “auto de Natal pernambucano”, longo poema equilibrado entre rigor formal e temática, conta o roteiro de um homem do agreste que vai em demanda do litoral e topa em cada parada com a morte, presença anônima e coletiva, até que no último pouso lhe chega a nova do nascimento de um menino, signo de que algo resiste à constante negação da existência.”(Alfredo Bosi)
a) Pai João
b) Brasil-menino
c) Evocação do Recife
d) Morte e vida severina

7. “Diadorim me chamou, fomos caminhando, no meio da queleléia do povo. Mesmo eu vi o Hermógenes: ele se amargou engulindo de boca fechada – ‘Diadorim’- eu disse – ‘esse Hermógenes está em verde, nas portas da inveja...’ Mas Diadorim por certo não me ouviu bem, pelo que começou dizendo: - ‘Deus é servido...’
No texto acima há elementos que permitem identificar o romance do qual foi extraído. O romance é:
a) Os Sertões
b) O Quinze
c) Grande Sertão:Veredas
d) Vidas Secas
e) O Coronel e o Lobisomem

8. As ações do romance acima referido se passam:
a) nos sertões do Ceará.
b) nos sertões de Minas Gerais.
c) no sertão da Bahia.
d) no interior do Rio de Janeiro.
e) no interior de Pernambuco.

9. O Conjunto de Novelas de João Guimarães Rosa, publicado em 1956 aparece sob o título:
a) Corpo de baile.
b) Primeiras estórias.
c) Grande sertão: veredas.
d) Sagarana.
e) Estas estórias.

Tendências da Poesia Brasileira Contemporânea:
1960 – atualidade


É difícil esquematizar a variedade de tendências da arte, nesse período, por duas razões: historicamente, são fatos recentes demais e há uma grande mistura de estilos que convivem pacificamente.
A atitude pós-moderna configura-se, na arte, pela ironia, pelo pastiche e pela pouca esperança diante da realidade, tendo como principais características:
· Eliminação de fronteiras entre a arte erudita e a arte popular;
· Intertextualidade(diálogo ou cruzamento entre obras);
· Mistura de estilos(ecletismo);
· Preocupação com o presente, sem projeção no futuro.

A arte pop é outra tendência pós-moderna das artes plásticas. Utiliza-se, frequentemente, da intertextualidade, com uma característica particular: não são tomadas como referência apenas obras de arte do passado, mas também as imagens banalizadas dos meios de comunicação de massa. Também é comum o pastiche, obra literária (ou artística em geral) imitada servilmente de outra ou montagem feita de trechos de obras, não, necessariamente, do mesmo autor.
No TEATRO, não se deseja mais um expectador passivo, mas sim participante: o público é convidado a participar da ação, que muitas vezes sai dos limites do palco e envolve a platéia.
A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, após a experiência da bossa-nova, sofreu a concorrência maciça da música estrangeira, perdendo espaço nas emissoras de rádio e nas listagens de vendas de disco, recuperando-se, todavia, nestes últimos anos graças ao fenômeno pop: sertanejo, pagode, axé music e outras tendências.
O CINEMA, depois de uma fase riquíssima, o cinema novo, da década de 60, foi vítima do mesmo processo de estrangulamento, na concorrência com filmes estrangeiros.
Durante algum tempo, anos 80 e início dos anos 90, o cinema brasileiro só produziu “bombas”, filmes de tendência pornográfica sem um enredo lógico. Nestes últimos anos, porém(e já era tarde), tem empreendido excelentes produções, algumas, inclusive, indicadas para o Oscar, como é o caso de O Quatrilho e O que é isso, companheiro?.
Analisando esse período, não podemos ignorar a rapidez com que os modismos se sucedem. Graças ao avanço tecnológico, instalado, principalmente, a partir da década de 80, quase tudo se torna, rapidamente, obsoleto e descartável, gerando um consumismo cada vez mais acentuado. As artes não ficam imunes a essa característica do nosso tempo.


O Concretismo
Surge em 1952, tendo como proposta modificar os hábitos do receptor, que ao invés de ler, passa a ver a poesia.
O Concretismo privilegia os recursos gráficos(já que a comunicação entre o texto e o leitor passa a ser visual) das palavras e o abandono do discurso tradicional, tendo como características principais:
· abolição do verso;
· aproveitamento do espaço do papel como fator de significado;
· aproveitamento do significante: seus conteúdos sonoros e visuais;
· rejeição do lirismo;
· o poema não vale pelo que significa, mas pelo que é(poema-objeto);
· possibilidade de leituras múltiplas.

O concretismo fez mais sucesso fora do país. No Brasil, três intelectuais representam o movimento, com destaque: Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

TEXTO 01 - Décio Pignatari

beba coca cola
babe cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
c l o a c a


TEXTO 02 – José Lino

vai e vem
e e
vem e vai


Poesia-Práxis

Também conhecida como Instauração Práxis, iniciou-se em 1962, com o poeta Mário Chamie, que em vez de levar em conta a palavra-coisa do concretismo, considera a palavra-energia, ou seja, aquela que gera outras palavras no contexto do poema: as palavras são organismos vivos.
A poesia-práxis representa uma ruptura do grupo concretista, em fins do anos 50.
Principais poetas filiados ao grupo: Mário Chamie, Mauro Gama, Yone Gianetti Fonseca, Armando Freitas Filho, Antonio Carlos Cabral.


AGIOTAGEM – Mário Chamie

um
dois
três
o juro: o prazo
o por / o cento / o mês / o ágio.
P o r c e n t á g i o
dez
cem
mil
o lucro: o dízimo
o ágio / a moral / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o
muito
nada
tudo
a quebra: a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota,
h a j a n o t a
agiota.

Poesia Social

Resultou da reação de alguns poetas a duas características que, segundo eles, dominavam as tendências da época: excesso de formalismo, com o consequente distanciamento do público e alienação dos movimentos de vanguarda.
Buscando maior comunicação com o leitor, a poesia social propõe o retorno ao verso, uma linguagem mais simples e uma temática voltada para a realidade social da época. A poesia é veículo de participação política.

João Boa-Morte, cabra marcado para morrer.
(parte final)
..........
E assim se acabou uma parte
da história de João.
A outra parte da história
vai tendo continuação
não neste palco de rua
mas no palco do sertão.
Os personagens são muitos
e muita a sua aflição.

Já vão todos compreendendo,
como compreendeu João,
que o camponês vencerá
pela força da união.
Que é entrando para as Ligas
que ele derrota o patrão,
que o caminho da vitória
está na revolução.


Poema-processo

Lançado em exposições realizadas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, em 1967, este movimento radicalizou o Concretismo, utilizando, sobretudo, signos visuais. A palavra pode ou não ser usada, todavia já não é indispensável. Mais tarde, o grupo radicalizou ainda mais, afirmando que “a palavra escrita já não é uma realidade na civilização técnica”e, em lugar da palavra, propõe adotar “novas disposições tipográficas...”
Em 1973, publicou-se um Manifesto de Encerramento do Poema-Processo. O líder do grupo foi o poeta Wladimir Dias-Pino.

Tropicalismo

Dominando o cenário musical, principalmente nos anos 67 e 68, o Tropicalismo apresenta algumas contribuições para a literatura. Retomando, basicamente, a proposta do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, os tropicalistas sugeriam a “deglutição” de qualquer cultura, fosse ela qual fosse, sem preconceito estético e sem xenofobia. Resultaram daí o humor e o anarquismo(se considerarmos os valores da burguesia como padrão), a ironia e a paródia. Na década de 70, o movimento declina, sobretudo por força da rigorosa censura imposta pelo regime militar.

TEXTO 01: Let’s play that – Torquato Neto

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that.


Poesia Marginal dos Anos 70 (“geração mimeógrafo”)

A poesia marginal é assim chamada porque sua impressão e distribuição não eram feitas por editoras, desvinculando-se, portanto, do sistema. A linguagem é muito diversificada, tendo como característica comum a aproximação, quase fusão, de poesia e vida.
Muitas vezes, ocorrem influências do Concretismo e do Poema-Processo. A linguagem é, quase sempre, coloquial. É frequente o uso da paródia, bem como da metalinguagem.
Enquanto os concretistas atribuem grande importância à construção do poema, os marginais preocupam-se com a expressão, ora de fatos triviais, ora de seus sentimentos, além de denunciar o clima de medo que o país enfrentava.
Alguns poetas que começaram como “marginais” têm, hoje, sua obra impressa e distribuída por grandes editores. É o caso de: Chacal, Paulo Leminski, Cacaso, Chico Alvim.

TEXTO 01: Papo de Índio – Chacau

Veio os ômi de saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disseram que chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistiram e nós comemu eles.


TEXTO 02:Visita -Chico Alvim

Não bateram na porta
Arrombaram


TEXTO 03 – Nicolas Behr

quem tem a mão decepada
levante o dedo.

Poesia Moderna e Música Popular

Segundo o crítico Afonso Romano de Sant’Anna, “à altura de 1968, depois do Tropicalismo, as vanguardas pareciam já ter exaurido suas propostas fundamentais. A música popular brasileira, que desde 1965 vinha interessando mais amplamente à juventude, mostra uma força insólita através de dezenas de festivais de canções e de programas especiais de TV. A música capitaliza a perplexidade do povo brasileiro ante o momento político(pós 64) e passa a cumprir um papel que a poesia literária jamais poderia realizar. Os poetas passam a investir na música popular através de ensaios, poemas, participação em júris de festivais e por meio de catequeses teóricas. As escolas e universidades descobrem o texto da música popular como um produto a ser esteticamente analisado.”


Tendências da Prosa Contemporânea

No romance, o regionalismo continua muito rico e produtivo na pena consagrada de: Mário Palmério, Bernardo Élis, Antônio Callado, Josué Montello, José Cândido de Carvalho, João Ubaldo Ribeiro, Márcio de Souza, Roberto Drumnmond, Ana Miranda....
Nos últimos anos destacou-se bastante o escritor Rubem Fonseca, utilizando uma estrutura de romance policial e/ou histórico.
Ainda na prosa, as últimas décadas assistiram à consagração das narrativas curtas – crônica e conto. O desenvolvimento da crônica está, intimamente, ligado ao espaço aberto a esse gênero na grande imprensa. Atualmente, jornais e revistas de circulação nacional incluem em suas páginas crônicas de: Fernando Sabino, Lourenço Diaféria, Luís Fernando Veríssimo, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta.

O conto, analisado no conjunto das produções contemporâneas, situa-se em posição privilegiada tanto em qualidade como em quantidade: Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Samuel Rawet, Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo, Domingos Pellegrini Jr., João Antônio, Ligia Fagundes Telles, Luís Vilela, Nélida


Metamorfose Ambulante
Raul Seixas

Prefiro ser essa metamorfose ambulante

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

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