quarta-feira, 30 de abril de 2014

TEXTOS PARA O TERCEIRO ANO DO CIEP 331

Pessoas fofas da 3001 – CIEP 331 , divirtam-se:


TEXTO 01: Descobrimento – Mário de Andrade

            Abancado à escrivaninha em São Paulo
            Na minha casa da Rua Lopes Chaves
            De supetão senti um friúme por dentro.
            Fiquei trêmulo, muito comovido
            Com o livro palerma olhando pra mim.

            Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim
            Na escuridão ativa da noite que caiu
            Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
            Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
            Faz pouco se deitou, está dormindo.
            Esse homem é brasileiro que nem eu.


TEXTO 02: Sampa – Caetano Veloso


            Alguma coisa acontece no meu coração
            que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
            é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
            da dura poesia concreta de tuas esquinas
            da deselegância discreta de tuas meninas
            ainda não havia para mim Rita Lee
            a tua mais completa tradução
            alguma coisa acontece no meu coração
            que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João
            quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
            chamei de mau gosto o que vi de mau gosto o mau gosto
            é que Narciso acha feio o que não é espelho
            e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
            nada do que não era antes quando não somos mutantes
            e foste um difícil começo afasto o que não conheço
            e quem vem de outro sonho feliz de cidade
            aprende depressa a chamar-te de realidade
            porque és o avesso do avesso do avesso
            do povo oprimido nas filas nas vilas favelas
            da força da grana que ergue e destrói coisas belas
            da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
            eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
            tuas oficinas de florestas teus deuses da chuva
            panaméricas de áfricas utópicas túmulo do samba
            (mais possível novo quilombo de Zumbi)
            e os novos baianos passeiam na tua garoa
            e os novos baianos te podem curtir numa boa.

TEXTO 03: Vou-me Embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada             
Lá sou amigo do Rei                                 
Lá tenho a mulher que quero                  
Na cama que escolherei                          
Vou-me embora pra Pasárgada             

Vou-me embora pra Pasárgada             
Aqui eu não sou feliz                                
Lá a existência é uma aventura              
De tal modo inconsequente                     
Que Joana a louca de Espanha              
Rainha e falsa demente                           
Vem a ser contraparente                          
Da nora que nunca tive                            

E como farei ginástica                              
Andarei de bicicleta                                  
Montarei em burro brabo                          
Subirei no pau-de-sebo                            
Tomarei banhos de mar!                          
E quando estiver cansado                       
Deito na beira do rio                                  
                                                          
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada  tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.



TEXTO 04: flexas contra o muro – Cassiano Ricardo
Pra se poder viver                                                 
compra-se o mundo em que se vive.
Como quem compra um objeto secreto, mas visível.
Compram-se os seus problemas sem solução.
Quem nasce no mundo, hoje,
compra, sem o querer, uma pomba.
Com um alfinete feérico na cabeça
Uma pomba extremamente vizinha de bomba.
Uma e outra têm asas.
Uma e outra são limpas.
Ambas são irmãs pelo som.
Um simples equívoco
de fonemas ou de telefonemas
entre os dois hemisférios
uma troca de b por p
e o mundo explodirá em nossa mão.



TEXTO 05: Diversos, de Oswald de Andrade

            PRONOMINAIS                                         
            Dê-me um cigarro              
            Diz a gramática                              
            Do professor e do aluno               
            E do mulato sabido            
            Mas o bom negro e o bom branco          
            Da nação brasileira            .
            Dizem todos os dias
            Deixa disso camarada                              
            Me dá um cigarro.              


            VÍCIO NA FALA
            Para dizerem milho dizem mio
            Para melhor dizem mió
            Para pior pió
            Para telha dizem teia
            Para telhado dizem teiado
            E vão fazendo telhados.
           

            AMOR
            Humor


TEXTO 06: Brás, Bexiga e Barra Funda – Alcântara Machado

            Do consórcio da gente imigrante com o ambiente,
            do consórcio da gente imigrante com a indígena
            nasceram os novos mamelucos.
            Nasceram os italianinhos.
            O Gaetaninho.
            A Camela.
            Brasileiros e paulistas. Até bandeirantes.
            E o colosso continuou rolando.
            No começo a arrogância indígena perguntou meio zangada:

            Carcamano pé-de-chumbo
            Calcanhar de frigideira
            Quem te deu a confiança
            De casar com brasileira?

            O pé-de-chumbo poderia responder tirando o cachimbo
            da boca e cuspindo de lado: A brasileira, per Bacco!
           
            Mas não disse nada. Adaptou-se. Trabalhou. Integrou-se.
            Prosperou.
            E o negro violeiro cantou assim:

            Italiano grita
            Brasileiro fala
            Viva o Brasil!
            E a bandeira da Itália!



CRIATURAS, SÓ ATÉ AQUI. BEIJOS PARA OS BEIJÁVEIS E ABRAÇOS PARA OS ABRAÇÁVEIS.


ARTIGO DE OPINIÃO

SOU CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
Renato Roseno

            A brutalidade cometida contra dois jovens em São Paulo reacendeu uma fogueira: a redução da idade penal. Algumas pessoas defendem a ideia de que a partir dos dezesseis anos os jovens que cometem crimes devem cumprir pena em prisão. Acreditam que a violência pode estar aumentando porque as penas que estão previstas em lei, ou a aplicação delas, são muito suaves para os menores de idade. Mas é necessário pensar nos porquês da violência, já que não há um único tipo de crime.
            Vivemos em um sistema socioeconômico historicamente desigual e violento, que só pode gerar mais violência. Então, medidas mais repressivas nos dão a falsa sensação de que algo está sendo feito, mas o problema só piora. Por isso, temos que fazer as opções mais eficientes e mais condizentes com os valores que defendemos.

            Defendo uma sociedade que cometa menos crimes e não que puna mais. Em nenhum lugar do mundo houve experiência positiva de adolescentes e adultos juntos no mesmo sistema penal. Fazer isso não diminuirá a violência. Nosso sistema penal como está não melhora as pessoas.
            O problema não está só na lei, mas na capacidade para aplicá-la.
            Sou contra porque a possibilidade de sobrevivência e transformação desses adolescentes está na correta aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lá estão previstas seis medidas diferentes para a responsabilização de adolescentes que violaram a lei. Para fazer bom uso do ECA é necessário dinheiro, competência e vontade.
            Sou contra toda e qualquer forma de impunidade. Quem fere a lei deve ser responsabilizado. Mas reduzir a idade penal é ineficiente para atacar o problema. Problemas complexos não serão superados de modo simplório e imediatista. Precisamos de inteligência, orçamento e, sobretudo,  de um projeto ético  e político de sociedade que valorize a vida em todas as suas formas. Nossos jovens não precisam ir para a cadeia. Precisam sair do caminho que os leva até lá. A decisão agora é nossa: se queremos construir um país com mais prisões ou com mais parques e escolas.


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Renato Roseano é advogado, coordenador do Centro
De Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca –
Ceará) e da Associação Nacional dos Centros de
Defesa da Criança e do Adolescente (Anced).


FIM DA POSTAGEM PARA A 3001

MATERIAL PARA O SEGUNDO ANO DO CIEP 331

Noite de Almirante - Machado de Assis
Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do arsenal de marinha e  se enfiou pela rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa viagem de instrução, e Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:
- Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva...
Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como eles dizem, uma dessas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começara a paixão três meses antes de sair a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o acompanharia para a vila mais recôndita do interior.
A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remédio senão seguir em viagem de instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiança recíproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.
- Juro por Deus que está no céu. E você?
- Eu também.
- Diz direito.
- Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.
Estava celebrado o contrato. Não havia descrer da sinceridade de ambos; ela chorava doidamente, ele mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sair a corveta e voltou para casa com um tal aperto no coração que parecia que "lhe ia dar uma coisa". [...]
Nisto [Deolindo] chegou à Gamboa, passou o cemitério e deu com a casa fechada. Bateu, falou-lhe uma voz conhecida, a da velha Inácia, que veio abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.
- Não me fale nessa maluca, arremeteu a velha. [...]
- Mas que foi? que foi?
A velha disse-lhe que descansasse, que não era nada, uma dessas coisas que aparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...
- Mas virada por quê?
- Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de fazendas? Está com ele. Não imagina a paixão que eles têm um pelo outro. Ela então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga.
[...]
- Onde mora ela?
- Na praia Formosa, antes de chegar à pedreira, uma rótula pintada de novo. [...]
- Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo. [...]
- Sei tudo, disse ele.
- Quem lhe contou?
Deolindo levantou os ombros.
- Fosse quem fosse, tornou ela, disseram-lhe que eu gostava muito de um moço?
- Disseram.
- Disseram a verdade.
Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a ação dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era homem de juízo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como, amanhecera gostando dele.
- Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Inácia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo. [...]
A esperança, entretanto, começava a desampará-lo e ele levantou-se definitivamente para sair. [...]
Como ele se despedisse, Genoveva acompanhou-o até à porta para lhe agradecer ainda uma vez o mimo [um brinco], e provavelmente dizer-lhe algumas coisas meigas e inúteis. A amiga, que deixara ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra: "Deixa disso, Deolindo"; e esta outra do marinheiro: "Você verá." Não pôde ouvir o resto, que não passou de um sussurro.
Deolindo seguiu, praia fora, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metáfora de marujo, como um homem "que vai do meio caminho para terra". Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou à outra a anedota dos seus amores marítimos, gabou muito o gênio do Deolindo e os seus bonitos modos; a amiga declarou achá-lo grandemente simpático.
- Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que ele me disse agora?
- Que foi?
- Que vai matar-se.
- Jesus!
- Qual o quê! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as coisas, mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciúmes. Mas os brincos são muito engraçados.
- Eu aqui ainda não vi destes.
- Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os à luz. [...]

A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe no ombro, cumprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe notícias de Genoveva, se estava mais bonita, se chorara muito na ausência, etc. Ele respondia a tudo com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.


A causa secreta
Machado de Assis

[...] Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; [...] Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. [...] Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
— Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa [...]
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente... [...] A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; [...] Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. [...] Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, [...] de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. [...] Tempos depois, estando já formado [...] encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi. [...] Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. [...] Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da Rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos. [...]
Dois dias depois, [...] Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali: ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia... Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensanguentado, chamuscado, e não acabava de morrer. [...] Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo [...] A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue. Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem".
[...] Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
[...] Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos [...]


A causa secreta
Machado de Assis

[...] Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; [...] Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. [...] Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
— Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa [...]
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente... [...] A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; [...] Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. [...] Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, [...] de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. [...] Tempos depois, estando já formado [...] encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi. [...] Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. [...] Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da Rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos. [...]
Dois dias depois, [...] Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali: ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia... Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensanguentado, chamuscado, e não acabava de morrer. [...] Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo [...] A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue. Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem".
[...] Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
[...] Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos [...]


O Mulato
Aluísio Azevedo
1
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era bela”; do outro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!’’ Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar: “Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas!” Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço. Da Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os sons invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em todas as direções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. Os corretores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas, batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazéns, entre pilhas de caixões de cebolas e batatas portuguesas, discutiam-se o câmbio, o preço do algodão, a taxa do açúcar, a tarifa dos gêneros nacionais; volumosos comendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negócios, falando numa gíria só deles trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leiloeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam: “Mal-rais“ em vez de mil-réis. À porta dos leilões aglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

PARA AS TURMAS DE PRIMEIRO ANO DO NATÁLIO

Pessoinhas queridas, por uma questão de economia de papel, a melhor alternativa é copiar e colar esses textos no word antes de imprimi-los.

CANTIGAS TROVADORESCAS

TEXTO 01 – cantiga de amor - da época – DOM DINIS

Você me proibiu, senhora, / de que lhe dissesse qualquer coisa                          
sobre o quanto morro por sua causa. / Mas então me diga,                  
Por Deus, Senhora: a quem falarei / o quanto sofro e já sofri por você                             
senão a você mesma?                                      

Ou a quem direi o meu amor / se eu não o disser a você?
Mas dizê-lo também não adianta. / Sofro tanto de amor por você.
Se eu não lhe falar sobre isso / Como saberá o que sinto?

Ou a quem direi o sofrimento/ que me faz sofrer,
se eu não for dizê-lo a você? / Diga-me: o que faço?
E, assim, se Deus lhe perdoa, / coita do meu coração,                                           
a quem direi o meu amor?
                                              

TEXTO 02 – atual, com características de cantiga de amor -  Roberto Carlos

 Eu tenho tanto pra te falar, / mas com palavras não sei dizer                             
como é grande o meu amor por você. / E não há nada pra comparar                
para poder lhe explicar / como é grande o meu amor por você.          
Nem mesmo o céu, nem as estrelas, / nem mesmo o mar e o infinito,                  
não é maior que o meu amor, / nem mais bonito.
Eu desespero a procurar / alguma forma de lhe falar
como é grande o meu amor por você. / Nunca se esqueça nenhum segundo
que eu tenho o amor maior do mundo, / como é grande o meu amor por você.


TEXTO 01 – cantiga de amigo - da época – MARTIN CODAX

Tenho notícias / de que hoje chega o meu namorado / e irei, mãe, a Vigo.                      
                Tenho notícias / de que hoje chega o meu amado / e irei, mãe, a Vigo.                                            
                Hoje chega o meu namorado / e está são e vivo / e irei mãe, a Vigo.                  
 Hoje chega o meu amado / E está vivo e são / E irei, mãe, a Vigo.
 Está são e vivo / e amigo do rei / e irei, mãe, a Vigo.
 Está vivo e são / E é da confiança do rei / E irei, mãe, a Vigo.


TEXTO 02 – atual, com características de cantiga de amigo – Chico Buarque
                Oh pedaço de mim / Oh metade amputada de mim  
                Leva o que há de ti / Que a saudade dói latejada     
                É assim como uma fisgada / No membro que já perdi                            
                Oh pedaço de mim / Oh metade adorada de mim
                Leva os  olhos meus / Que a saudade é o pior castigo
                E eu não quero levar comigo / A mortalha do amor... Adeus.
  

Cantiga de Escárnio

  TEXTO 01 – da época -  Joan Airas de Santiago
 Uma dona, não vou dizer qual, / teve um forte agouro,                                         
pelas oitavas de Natal: / saía de casa para ir à missa,                           
mas ouviu um corvo carniceiro / e não quis mais sair de casa.                            

A dona, de um coração muito bom, / ia à missa                                                      
para ouvir seu sermão, / mas veja o que a impediu:                                
ouviu um corvo sobre si / e não quis mais sair de casa.                          
                                                                              
A dona disse: - E agora? / O padre já está pronto
e irá maldizer-me / se não me vir na igreja.
E disse o corvo: - Quá a cá / e ela não quis mais sair de casa.

Nunca vi tais agouros, / desde o dia em que nasci,
como o que ocorreu neste ano por aqui; / ela quis tentar partir,
mas ouviu um corvo sobre si / e não quis mais sair de casa.


 TEXTO 02 – atual, com características da cantiga de escárnio – Chico Buarque

A GALINHA

Todo ovo / Que eu choco / Me toco / De novo / Todo ovo            / É a cara      É a clara / Do vovô / Mas fiquei bloqueada       / E agora / De noite / Só sonho                  Gemada  / A escassa produção / alarma o patrão / As galinhas sérias / jamais tiram férias / Estás velha, te perdôo / Tu ficas na granja / em forma de canja" Ah!É esse o meu troco / por anos de choco / Dei-lhe uma bicada / e fugi, chocada / Quero cantarna ronda / na crista / da onda / pois um bico a mais / só faz mais feliz / a grande gaiola / do meu país.

Cantiga de Maldizer

  TEXTO 01 – da época – Pero da Ponte
 Quem a sua filha quiser dar / uma profissão com que                                           
possa prosperar  / há de ir a Maria Dominga,                          
que lhe saberá muito bem mostrar; / e vos direi o que lhe fará:                                          
antes de um mês lhe ensinará / como rebolar as ancas.

E já lhe vejo a ensinar e sustentar / uma filha sua;                                                
e quem observar bem suas artes / pode afirmar isto:                                              
que de Paris até aqui / não há mulher                                                        
que rebole melhor.                                           

E quem deseja enriquecer  / não ponha sua filha a fazer
trabalhos manuais; / enquanto esta mestra aqui estiver
ela lhe ensinará a profissão certa / para que seja uma mulher rica,
a não ser que lhe faltem homens.

Deve-se saber disso, / para aprender essas artes;
além disso, pode-se aprimorar / cada vez mais na profissão;
e depois que aprender tudo muito bem, / irá sustentar-se como puder;
Sustentar-se com seu próprio trabalho.

TEXTO 02 – atual, com características de cantiga de maldizer – Chico Buarque

GENI E O ZEPELIM

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:

"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:


"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

PARA O TERCEIRO ANO DO CIEP 331 - TURMA 3001

O Modernismo

                Pela diversidade e amplitude dos aspectos que compõem a arte moderna, torna-se muito difícil caracterizá-la com a mesma objetividade adotada para caracterizar movimentos(estilos de época) anteriores.

                Na verdade, tanto na Europa quanto no Brasil, em vez de um movimento uniforme, o que houve no início do século foram correntes artísticas que se caracterizaram pela quebra dos valores artísticos tradicionais e pela busca de técnicas e meios de expressão capazes de traduzir a nova realidade do século XX.

                No Brasil,  a todas essas tendências chamou-se Modernismo, movimento equivalente ao Futurismo, para os italianos e ao Expressionismo, para os alemães.


A Semana de Arte Moderna: 1922.

                Quando a Europa vivia seu último movimento de vanguarda, o Surrealismo, abriu-se ao público brasileiro o saguão do Teatro Municipal de São Paulo, nas noites de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922,  para uma série de apresentações, onde vários artistas mostravam obras com uma nova linguagem afinada com as correntes estéticas do começo do século.

                A Semana não foi apenas um movimento artístico, mas também político e social(pregava a tomada de consciência da realidade brasileira). Constituiu-se no “brado coletivo” do movimento modernista, já enraizado em várias obras, artigos e manifestos desde 1917.

                O evento tornou-se possível graças ao apoio financeiro dos fazendeiros de café, uma contradição, já que um dos objetivos era “assustar a burguesia que cochila na glória de seus lucros.”



Texto 01:  OS SAPOS – Manuel Bandeira

                Enfunando os papos,                                       
                Saem da penumbra,                                          
                Aos pulos, os sapos.                                         
                A luz os deslumbra.                                          

                Em ronco que aterra,                                       
                Berra o sapo-boi:                                             
-“Meu pai foi à guerra”                                  
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”               

                O meu verso é bom.                                           
                Frumento sem joio.                                           
                Faço rimas com                                                 
                Consoantes de apoio.                                      

                Vai por cinquenta anos                                   
                Que lhes dei a norma:                                      
                Reduzi sem danos                                             
                As formas a forma.                                            

                Clame a saparia                                               
                Em críticas céticas:                                          
                Não há mais poesia,                                         
                Mas há artes poéticas...”                                

                Urra o sapo-boi:                                               
                -“Meu pai foi rei!” – “Foi!”                          
-“Não foi! “ – “Foi!” – “Não foi!”                                                 
Brada em um assomo                                      
                O sapo-tanoeiro:                                                              
                - “A grande arte é como                                  
      Lavor de joalheiro.                                           ..

                O sapo-tanoeiro,
                Parnasiano aguado,
                Diz: -“Meu cancioneiro
                É bem martelado.

                Vede como primo
                Em comer os hiatos!
    Que arte! E nunca rimo
    Os termos cognatos.

                Ou bem de estatutário.
                Tudo quanto é belo,
                Tudo quanto é vário,
                Canta no martelo.

                Outros, sapos-pipas
                (Um mal em si cabe),
                Falam pelas tripas:
                -“Sei!”- “Não sabe!”- “Sabe!”

                Longe dessa grita,
                Lá onde mais densa
                A noite infinita
                Verte a sombra imensa;

                Lá, fugido ao mundo,
                Sem glória, sem fé,
    No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,                                                                  
                Transido de frio,
                Sapo-cururu
      Da beira do rio...

Texto 02: A Emoção Estética na Arte Moderna
Graça Aranha, na abertura da Semana

      “Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida, se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia  liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado.”

Texto 03: Menotti del Picchia – na 2a noite do evento

                “Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminé de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte!”



REPERCUSSÃO  DO EVENTO NA IMPRENSA DA ÉPOCA

            “Foi como se esperava, um notável fracasso a récita de ontem na pomposa Semana de Arte Moderna, que melhor e mais acertadamente deveria chamar-se Semana de Mal – às Artes.”  (Folha da Noite – 16.02.22)

                “A Semana de Arte Moderna está para acabar. É pena, porque, com franqueza, se do ponto de vista artístico aquilo representa o definitivo fracasso da escola futurista, como divertimento foi insuportável.” (Jornal do Commercio – 18.02.22)

                “As colunas da seção livre deste jornal estão à disposição de todos aqueles que, atacando a Semana de arte Moderna, defendam nosso patrimônio artístico.” (O Estado de São Paulo)


                DIVULGAÇÃO DAS IDÉIAS DA SEMANA

A partir dos acontecimentos no Teatro Municipal, divulgados pela imprensa da época, as novas idéias encontraram adeptos por todo o país. Assim, no período de 1922 a 1930 (primeira fase do Modernismo no Brasil) difundiram-se, por nosso cenário cultural, diversos manifestos e grupos, além de diversas revistas:

·         Manifesto da Poesia Pau-Brasil : “A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.  -  A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica.  – A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”

·         Manifesto Antropófago: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. – Tupy or nor tupy, that is the question. – Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto felicidade.”

·         Manifesto Nhenguaçu Verde-Amarelo:  “Aceitamos todas  as instituições conservadoras, pois é dentro delas mesmas que faremos a inevitável  renovação do Brasil, como o fez, através de quatro séculos, a alma da nossa gente, através de todas as expressões históricas. Nosso nacionalismo  é verdamarelo e tupi.”

Manifesto Regionalista de 1926: “Trabalhar em prol dos interesses da região (Nordeste) nos seus aspectos diversos: sociais, econômicos e culturais. – Desenvolver  o sentimento de unidade do Nordeste dentro dos novos valores modernistas.”